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"Disseram-me: verás quando tiveres cinqüenta anos. Tenho cinqüenta anos: não vi nada". Erik Satie
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29.6.06
A próxima lua
São nove da manhã e eu ainda não consegui dormir.
Hoje tenho a impressão de que se eu dormir vai se abrir um abismo embaixo de mim e eu vou ficar caindo pra sempre, meio alice no poço de melado, meio reforma da natureza, monteiro lobato. Vão roubar minha alma, levar meu olhar pra longe de mim, fotografar minha aura, e guardá-la num vidrinho azul vedado com lacre-de-chine comprado num brechó de botica. Vou desmaiar pra sempre e atravessar encarnações num desmaio crônico e encantado. Bela e adormecida. Tudo tragado pelo buraco negro, na anti-velocidade da luz. E meus cabelos crescendo, crescendo sem parar...
Se eu for dormir agora, depois de comer trufas de chocolate com menta e pimenta, com esse latejamento dentro das veias e esse gotejamento do cérebro, o abismo vai se abrir debaixo da minha cama e eu vou cair do mundo, aos pingos, e ficar vagando no espaço, como um pedaço perdido de uma nave que errou de órbita. Eu me esvaindo, pulverizada no espaço sideral. Misturada à poeira de estrelas, meteoritos e outros corpos celestes: lixo cósmico. Nunca mais vou conseguir me reunir pra voltar.
Vou deitar. Mas fique de olho, por favor: se o abismo se abrir embaixo de mim, serei a proxima lua, serei o proximo satélite da terra.
quando o segundo sol chegar...
2:28 PM
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20.6.06
Instantâneo
Ele trouxe coca-cola e toblerone, chocolate de adulto. Eu de cabelo molhado sobre a blusa preta decotada, saindo do banho, a pele perfumada por um óleo especial. Enquanto eu falava no telefone, ele sentou ao meu lado e me olhou, brincou com meu cabelo vermelho: enrolou uma mechinha no dedo e ficou fazendo cachinhos, perdido nos pensamentos, no meu cabelo cheiroso e úmido e naquela noite fria e silenciosa, com cheiro de incenso de massala de canela. Fez um cacho, dois, nem viu que tava fazendo. Mas eu vi. Uma daquelas cenas de carinho que a gente guarda pra sempre na memória. Tem amores que nunca se acabam, outros que nunca se realizam. E outros assim, cheios de cachos vermelhos, cheios de sabores e perfumes, cheios de silêncios e sons.
Tem certas coisas que eu nao sei dizer...
2:20 PM
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15.6.06
Os tipos de amor (superficial, gente, beeeem superficial)
Eros: paixão, energia, tesão, erotismo. Delícia total!
Mania: obsessão, ciúme, posse, dependência. Uó!
Ludus: divertimento, descontração, desprendimento. Aqui e agora! Já!
Storge: afeto, companhia, fraternidade, amizade. Sabe aquele amigão pra dormir abraçadinho? Isso! No fim das contas ficam até parecidos fisicamente, meio irmãozinhos...
Ágape: altruísmo, zelo, dedicação, ligação espiritual. Aquele tipo de gente que abre até mão do amor pelo outro, que dedica a vida a amar em segredo, se for preciso. Argh!
Pragma: Compatibilidade e bom senso. Até demais. tudo combinadinho, quem tira o lixo, quem vai às compras, quem leva o carro para abastecer e que dia tem sexo, tv ou barzinho. American way...
Não achei o autor, infelizmently
12:25 AM
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11.6.06
The anatomy of a truffle
O (excelente) cantor e compositor cubano René Ferrer escreveu em seu (excelente) CD Obatalá no quiere guerra, gravado aqui no Rio e lançado pelo selo Cambucá Music:
"La lujúria y el miedo
Se han apoderado de nuestros instintos,
Llevándonos al caos
Intensificando la destrucción de nuestros valores
como seres vivientes de esta tierra
En esta tierra armoniosa, de intenso paisaje,
donde abunda la delicadeza y el amor"
Degusto o CD, cheio de canções lindas, emocionantes e profundas, e sonho em cantar um dia com ele, enquanto saboreio uma trufa de menta com pimenta. Experiência sensorial complexa e delicada: aromas sutis, poemas singelos, texturas que começam com a aridez do cacau em pó que reveste a trufa e oferece pouca resistência até que se chegue ao interior perfumado, super cremoso, que derrete na boca, o timbre penetrante de René, experiência hmmm... como direi... luxuriante
Ah, a luxúria, meu pecado favorito! Pq inclui os bons pecados da preguiça e da gula, que usados com moderação colorem a vida. Os outros são caidaços: inveja, ira, cobiça, ambição. Menor graça...
O melhor de tudo é que o tal CD apareceu debaixo da porta da minha casa e eu nunca soube quem o deixou aqui, mistério que torna a coisa toda muito mais saborosa!
4:32 AM
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6.6.06
Não se ache horrível de manhã, acorde depois do meio-dia *
Nessas noites e madrugadas de outono o Rio de Janeiro cheira a flor, a dama-da-noite, a manacá. Um delírio para o olfato, uma orgia de perfumes, um jardim de delícias! Perfeito para passeios noturnos e longas noitadas. Perfeito para namorar muito e comer tangerinas maduras, ou ficar lendo dicionário juntos, morrendo de rir debaixo do edredon, ouvindo aquele disco, sabe? Aquele que a gente adora, que a gente ouve sem parar: Meia noite no jardim do bem e do mal. Ou então aquele outro que colocamos no repeat ad eternum, Miles Davis tocando Love songs. E o vinho. Era Tarapacá, né? Reserva Especial, bom pacas...
E as manhãs? Frias, sem aquele peso horrível do sol, sem aquela coisa dourada, grudenta, indecente, esquentando as paredes, invadindo a casa da gente que quer remanchar um pouco mais, que quer voltar a dormir qual fora um domingo de comuns mortais trabalhadores. Ou como nos felizes dias em que, na infância, acordávamos cedo, despertador gritando na cabeceira, e levantávamos trôpegos, correndo, para não perder a hora da escola. Aí lembrávamos que era sábado, e corríamos de volta pra cama, felizes da vida.
E você perdendo esse espetáculo todo pra acordar com os passarinhos? Ora, tenha paciência!
Pesadelo, de Fuseli
*Luanda, lembra do imã de geladeira que vc me deu de presente? Não pude deixar de citar a frase genial, já que sei que vc é a minha irmã coruja.
6:02 AM
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